ALBUNS CLÁSSICOS (#1)

Escrito por Pablo Peixoto em 25.06.2014

Pet Sounds – Beach Boys (1966)

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Hoje ouvi pela milionésima vez Pet Sounds.

Me disseram esses dias que o álbum é o verdadeiro marco do Psicodelismo. Fiquei pensando.
Pet Sounds não é psicodelismo, Mellow, Rock, Folk nem nada. É uma obra de arte que transcende qualquer rótulo ou pré-concepção. É a história de uma vida contada capítulo por capítulo. Da inocência à esperança; do desencantamento à melancolia do que poderia ser e não foi. E do que nunca mais vai ser. Os arranjos, letras, a sutil e bela tristeza de um gênio inquieto chamado Brian Wilson. Tudo se encaixando em harmonias cada vez mais intrigantes e maravilhosas. Pet Sounds. Clássico dos clássicos.

Os Beach Boys são comumente associados a um movimento chamado “Reação americana” que pretendia barrar a forte influência da música inglesa (Beatles, Rolling Stones etc…) nos EUA . Porém, enquadrar os Beach Boys na Reação americana é um pouco força de expressão. Antes dos Beatles cruzarem o Atlântico à frente da “Invasão britânica” em 1964, o quinteto americano já emplacava um disco de ouro atrás do outro nos EUA, combinando a forma básica do rock’n’roll com harmonias vocais do doo-wop para falar de surfe, carros e garotas.

“Beach Boys” foi um nome impingido à banda por um executivo de uma gravadora que mais tarde viria a se tornar a camisa de força do conjunto, o que se tornou um problema, já que os integrantes do conjunto desejavam se livrar do rótulo de “surfistas”. Apresentando uma formação composta pelos três irmãos Brian, Dennis e Carl Wilson, o primo Mike Love e o vizinho Al Jardine, este pequeno conjunto do subúrbio de Los Angeles criou um dos poucos sons originais do início dos anos 60. Seus vocais refletiam a antiga obsessão pelo conjunto vocal Four Freshman, com ênfase nos tenores e pequenas e complexas harmonias de fundo.

Embora não surfassem realmente (o único que tinha contato com o esporte era justamente o que não tocava nenhum instrumento à princípio, o baterista Dennis Wilson), o grupo foi um sucesso entre os praticantes e admiradores do esporte.

Mike Love compôs com Brian Wilson a maioria das músicas de sucesso do grupo. Mike era uma espécie de alter-ego de Brian e eles se completavam desta forma. Enquanto este era era retrospectivo e tímido, aquele era descolado e popular. Brian ajudava Mike com os estudos e Mike ajudava Brian com as garotas. Juntos compuseram pérolas para as “gatinhas surfistas” e também pelo prazer de “curtir a vida ao sol da California”. Entretanto, este clima leve era quebrado pelo introspectivo e vulnerável Brian, como em 1963 no sucesso “In my Room”.

Enquanto seus primeiros singles eram trampolins de álbuns de sucesso, os lançados a partir de 1965 ganharam contornos quase conceituais. A principal razão para essa mudança foi a forte concorrência com os Beatles, que mostravam um desenvolvimento incrível na complexidade de suas produções.

A cabeça por trás dessa guinada era Brian Wilson, que sempre sofreu com pressões desde a infância e ficou obcecado em superar o querteto de Liverpool – o pai deles, Murray, era um empresário despótico que costumava bater nos filhos no calor de uma discussão e era chamado de “maníaco” na Capitol Records, a gravadora do grupo. Em 64, após um colapso nervoso, Brian, que era vítima de crescente instabilidade emocional, interrompeu as excursões e abandonou os palcos (sendo substituído por Bruce Johnston) para se concentrar no trabalho de estúdio e assim fazer frente ao “desafio” lançado pelos Beatles. No início, o grupo era produzido por Nick Venet, mas logo, com seu crescente interesse em técnicas de gravação, Brian se tornou o produtor do grupo.

Impulsionados pela concorrência estrangeira, o grupo foi sofisticando seu trabalho. Brian Wilson é um dos dois ou três músicos revelados pelo rock que podem ser chamados de gênio, sem que isso pareça um exagero. Desde que começou a escrever para os Beach Boys, Brian mostrou sua capacidade de fazer músicas de aparente simplicidade, embora fossem, na verdade, peças de complexa sofisticação.

Em sua melhor fase, a marca de gênio de Brian Wilson está nas canções ‘When I Grow up (to be a man)’, ‘In My Room’, ‘Don’t Worry Baby’, ‘Break Away’ em que cada uma é uma pequena obra-prima. Seu ponto máximo está em Pet Sounds, álbum editado em 1966, que teve uma influência tamanha no rock que talvez jamais seja apropriadamente medida ou reconhecida.

Apesar de universalmente considerado o grande disco dos Beach Boys, na época de seu lançamento, Pet Sounds não vendeu tão bem quanto os álbuns anteriores. É compreensível. Trata-se de uma peça de difícil assimilação, com complexidades harmônicas, arranjos e texturas vocais incomuns. Não se trata de um disco que cative à(s) primeira(s) audição(ões), apesar de naturalmente incluir hits instantâneos, a começar pela faixa de abertura, “Wouldnt it be nice”, “Sloop John B” e por “Caroline No”. As delicadezas de baladas como “I’m Waiting for the Day” ou de ‘God Only Knows” demoram um pouco a entrar na cabeça e consumar a sedução. Enfim, o som que costumava ser despreocupado alegre e inocente se torna, depressivo, melancólico e introvertido. O clima de depressão emocional, os arranjos magoados e a beleza triste das harmonias são de tocar até os mais precavidos.

A versão em CD inclui três faixas extras com bonus tracks interessantes como “Hang On to Your Ego,” uma versão alternativa para “I Know There’s An Answer” e um magnífico instrumental chamado “Trombone Dixie”.

Em 1967 foi lançado o Single “Good Vibrations”, que pode ser considerado um eco de Pet Sounds. Para gravar somente essa música, foram gastos seis meses, vinte sessões de gravação, quatro estúdios e cinqüenta mil dólares.

A razão da crise criativa dos Beach Boys pós Pet Sounds, tinha nome: “Smile”. No fim de 1966, Brian havia começado a trabalhar num disco assim batizado, que, segundo ele, se tornaria o grande disco da psicodelia. No ano seguinte, porém, os Beatles, sempre eles, lançaram um disco imediatamente aclamado como o grande disco da psicodelia: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts CIub Band. Assim, Smile nunca foi concluído ou lançado naquela época: partes foram pirateadas nos anos 80 e partes afinal vieram à tona em uma caixa contendo cinco Cd`s chamada de “Good Vibrations: Thirty Years of The Beach Boys”, lançada pela gravadora Capitol em 1993.) Logo, uma combinação de tensão competitiva, drogas em excesso e desentendimentos pessoais levou o grupo a tomar a desastrosa decisão de assumir a produção de seus discos coletivamente.

Curiosamente, Pet Souds acabou sendo peça fundamental de inspiração para os Beatles em “Sargent Peppers Lonelly Hearts Club Band”. O próprio Paul McCartney admite ter ouvido seguidamente Pet Souds durante as gravações. “A maior influência foi o álbum Pet Sounds, que tem basicamente todas as harmonias que usei,” disse Paul certa vez.

Brian, que já estava paranóico com os Beatles, cai em profunda depressão crônica depois do lançamento de “Sargent Peppers”, o que contribuiu para torná-lo uma das mais conturbadas, frágeis, complexas e ainda assim geniais personalidads da música pop.

No livro “The Noonday Demon”, o autor, Andrew Solomon, esboça um estudo que foi feito envolvendo depressivos, não-depressivos, e jogos de videogame. O placar do jogo não era mostrado e os testados tinham que estimar suas pontuações. As respostas dos deprimidos eram freqüentemente certas. Pessoas que nunca tinham estado deprimidas tenderam a superestimar as pontuações em até quatro vezes. Isso poderia nos levar a crer que as pessoas otimistas sao de fato pouco menos realistas que o resto? Ou que o pára-choque que segura as pessoas felizes longe de depressão é o medo de se desiludir? Essa foi a tônica das canções dos Beach Boys desta época.

Isso pode ajudar a explicar porque Brian Wilson usa a frase “I may not always love you” (“Eu posso não te amar sempre”) em “God Only Knows”. Nesta que é considerada por muitos críticos como a mais bonita canção de amor do mundo, Brian está sendo tão otimista quanto sua mente depressiva o permite ser. Ele não está superestimando e exagerando seu sentimento, está sendo simplesmente honesto com o que sente. Ele continua: “But ‘long as there are stars above you/ You never need to doubt it.” (“Mas enquanto houver estrelas sobre você/ Você não precisa duvidar disso”). Puro e honrado, ele ainda reconhece a importância da fé. George Harrison foi influenciado fortemente por esta sentimento quando escreveu na canção “Something”: “You’re asking me will my love grow/ I don’t know/ I don’t know.” (“Você está me perguntando vá meu amor cresçerá / eu não sei / eu não sei.”). Ninguém sabe ao certo.

A banda superou sua turbulenta história pessoal, mas não sem conseqüências. Dennis desenvolveu um comportamento autodestrutivo e faleceu em 1983. Carl Morreu do coração em 1998. Smile foi finalmente finalizado e lançado por Brian Wilson em 2004.


Track list:

1. Wouldn’t It Be Nice
2. You Still Believe In Me
3. That’s Not Me
4. Don’t Talk (Put Your Head On My Shoulder)
5. I’m Waiting For The Day
6. Let’s Go Away For Awhile
7. Sloop John B
8. God Only Knows
9. I Know There’s An Answer
10. Here Today
11. I Just Wasn’t Made For These Times
12. Pet Sounds
13. Caroline No
14. Unreliased Backgrounds – (bonus track)
15. Hang On To Your Ego – (bonus track)
16. Trombone Dixie – (bonus track)

Beach Boys:

Brian Wilson (produção, voz, baixo e teclados)
Mike Love (voz)
Carl Wilson (voz e guitarra)
AI Jardine (voz e guitarra)
Dennis Wilson (voz e bateria)