A Liga Extraórdinária Brasileira

Escrito por Pablo Peixoto em 24.06.2014


Poucos de vocês devem ter ouvido falar da história em quadrinhos “A Liga Extraordinária” (The League of Extraordinary Gentlemen) de Alan Moore. Porém, muitos de vocês já devem ter assistido ou ouvido falar da adaptação para os cinemas, que acabou sendo um fracasso de bilheteria e crítica. Eu discordo de ambas. Hoje vi a reprise e atesto que apesar de não ser um filme excelente, e de admitir que ele abusa das licenças nas adaptações, acho um filme interessante, principalmente se você conseguir pescar as referências às literaturas britânica e americana.

A ideia de juntar grandes figuras da literatura clássica e colocá-los juntas é fascinante, e me fez pensar. E se criássemos no Brasil nossa própria liga, com nossos heróis dos romances e folhetins do século XIX? O resultado está aí. Para o deleite de vocês e para o orgulho do meu professor de Literatura, apresento a Liga Extraordinária Brasil.

Bento (Bentinho) Santiago
“Dom Casmurro”, de Machado de Assis

Bento tem três fases interessantes, mas a que a gente vai usar é a do camarada carrancudo, cético, pessimista e amargo. É ele é quem dá um sopro de realidade na fantástica equipe, trazendo sempre as aventuras para o plano do real. Bento faz as vezes de líder austero, não permitindo que as personalidades conflitantes de seus integrantes arruínem a missão.

Leonardo Pataca
“Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida

Em seu romance, Leonardo é um rapaz cujas aventuras e desventuras são narradas com graça e malícia. Leonardo se vale de artimanhas para garantir a sobrevivência, vive ao sabor das circunstâncias e vai se metendo em enrascadas e delas se livrando com astúcia e sorte. É o espertalhão do grupo. Tem seus contados, conhece as ruas e conta com uma inacreditável sorte que sempre o tira das enrascadas. É o mais jovem do grupo, sua inexperiência é compensada por sua esperteza e impulsividade.

Peri
“O Guarani” – José de Alencar

Peri, o “bom selvagem”, corajoso chefe da nação dos Goitacases. Ao contrário de Leonardo, Peri é puro, justo e correto. Peri tem força e resistência invejáveis. Apesar de conhecer a natureza e os segredos místicos da floresta, tem total inabilidade em compreender os modos do homem branco e suas artimanhas.

Brás Cubas
“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis

Cubas é um fantasma que usa seus poderes do além para ajudar seus amigos da Liga. Irônico e dono de um perturbador senso de humor negro, Brás não dá a mínima pros vivos e passa o tempo inteiro brincando com suas fragilidades mundanas com sua pena da galhofa e tinta da melancolia.

Jão Fera
“Til”, de José de Alencar
No romance, Jão Fera, o Bugre, é um brutamontes capaz das maiores atrocidades, mas que guarda bem fundo em seu interior um bom coração. Quase um corcunda de Notre Dame. Vamos dar uma exagerada: na nossa história, Jão Fera é um descomunal e agressivo monstro dotado de músculos poderosos e pouco intelecto.

Cabeleira
“O Cabeleira” – Franklin Távora

Nenhum grupo de herois ficaria completo sem um anti-heroi sanguinolento. Esse é José de Gomes, o Cabeleira, um dos primeiros cangaceiros do Brasil. Um paraibano modafoca que resolve seus problemas na base da peixeira. Apesar da sua personalidade corrompida, Cabeleira é um fruto da situação, sendo capaz de agir pela justiça quando convencido.

Lucía
“Lucíola”, de José de Alencar

Lúcia era uma mulher de rara beleza e suave aspecto, que faziam parecer uma jovem inocente. Esse aspecto na verdade esconde uma mulher sedutora e dominadora, bem diferente das outras em sua época. Lúcia é sofisticada e cosmopolita e, ao contrário da maioria de seus companheiros de equipe conhece os maneirismos e as sutilezas da etiqueta europeia. Ela é independente e decidida, uma mulher de gênio muito forte.

E você, tem algum nome para acrescentar? Discorda de alguma escolha? Comente!

Update: A Flávia Durante me mandou um link do Topismos de Denis Pacheco, que teve a mesma idéia. Pra não ficar devendo nada, vai o link da Liga que ele imaginou.