Álbuns Clássicos (#1)

Escrito por Pablo Peixoto em 19.02.2014

The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars – David Bowie (1972)


Alguns o consideram o disco mais influente do rock dos anos 70. De fato, não foi pouco o que David Bowie conseguiu com este The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars. O quarto disco do inglês, que antes era conhecido como David Jones (por azar, o mesmo nome de um dos integrantes da famosa armação pop americana The Monkees), tirou o sobrenome artístico do modelo de uma faca com a qual se cortou uma vez.

Bowie foi ziguezagueando pelos anos 60 do Blues para o Rock, do Rock para o pop, até encontrar um estilo e inventar um alterego único que o lançou ao estrelato. “Um dia David Bowie botou um vestido, pintou a cara e caiu na vida” diz Arthur Dapieve e Luiz Romanholli, em seu livro “Guia de Rock em CD”. A figura andrógena do cantor e o visual extravagante purpurinado e os temas fantásticos das canções ganharam a simpatia da mídia e da crítica. Era o Glam Rock que nascia na Inglaterra e ganhava adeptos, se espalhando rapidamente e influenciando muitos dos artistas que viriam a seguir, como o Queen, New York Dolls até o Kiss e os brasileiros dos Secos e Molhados. A androgenia mais tarde seria levada as últimas conseqûencias quando, no Texas, um homem apontou uma arma para a cabeça de David e o chamou de “viado”. Bowie se defendeu dizendo que era um vestido masculino. Detalhe, David Bowie tem de nascença um olho verde e outro azul tem uma pupila mais dilatada que a outra por conta de uma briga de futebol, o que o ajudou a compor seu visual alienígena.

The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders From Mars acabou transformando-o na grande sensação do rock daquele ano de 1972, com uma mistura de talento, inventividade e um bocado de senso de oportunidade. Bowie, que vinha de discos sem muita repercussão – The Man Who Sold The World (aquela música que na verdade não é do Nirvana) e Hunky Dory -, acertou ao se aproveitar da onda do glam rock capitaneada por Marc Bolan e seu T-Rex. A isso, David juntou uma boa dose de fantasia e teatro, criando uma espécie de álbum conceitual, futurista, sobre um astro de rock extraterreno e bissexual e sua saga – ascenção e queda – em nosso planeta. Tudo bem a ver com aquele imaginário da Inglaterra na época, de filmes de Stanley Kubrick como 2001 – Uma Odisséia no Espaço e Laranja Mecânica.

Bowie pintou os cabelos de vermelho e passou a vestir seu corpo branco e magro com roupas femininas. E para reforçar a exótica imagem, ainda disse em entrevistas que era gay. Assim, começavam a confundir-se o músico e o personagem, Ziggy Stardust, um prótotipo da superestrela do rock. O disco apareceu na época como uma espécie ópera-rock, com base musical de primeira – da banda Spiders From Mars, liderada pelo excelente guitarrista (e pianista) Mick Ronson – e letras surrealistas, que bateram entre a juventude como mensagens a serem decifradas.

O álbum começa com a sombria “Five Years”, que anuncia: o mundo terá apenas mais cinco anos antes do fim. Um pianão dos bons e a interpretação dramática de Bowie ajudam a compor o clima de caos que toma conta das pessoas diante do desespero. “Um tira se ajoelhou e beijou o pé de um padre / e uma bicha vomitou ao ver aquilo”. Mais à frente, o rock começa a comer, em “Moonage Daydream”, com Bowie provocando: “Mantenha seu olho elétrico em mim, querida. Ponha seu disparador de raios na minha cabeça”.

Ziggy Stardust acabou rendendo alguns dos maiores sucessos da carreira do astro, como a balada especial “Starman” – que na versão dos gaúchos Nenhum de Nós, o “Astronauta de Mármore”, foi um hit no Brasil em 1989, época em que Bowie veio com a turnê de Sound + Vision (e teve que escutar muita gente cantando a música em português). “Há um homem-estrela espertando no céu / ele gostaria de vir nos encontrar / mas ele acha que piraria nossas cabeças”, canta o inglês, no delirante original.

Um clássico do disco é a faixa-título “Ziggy Stardust”, tema da personagem, com letra que é repleta de imagens alucinadas. Igualmente memoráveis em Ziggy Stardust são faixas como a pré-punk “Hang Onto Yourself” e o “arrasa quarteirão” “Suffragette City”, que fala da perdição do estrelato, com mais um toque de brilho dado pela guitarra de Mick Ronson. A seguir, a história acaba em suicídio: “Rock’N’Roll Suicide”, última faixa, uma balada das mais tristes, com jeitão de soul. Tudo muito caracteristicamente Bowie, “Soul Love” e “Star” falando da fama e “Lady Stardust”, que tem um piano de fazer inveja a Elton John.

Com um disco desses, Bowie só precisou cair na estrada. Os shows do Ziggy foram coisa para ninguém esquecer, momentos que entraram para a história do rock. Davis também encenava suas músicas usando técnicas teatrais e uma boa dose de selvageria certamente inspirada em Iggy Pop and the Stooges. O Climax do show eram as insinuações eróticas entre Bowie e o guitarrista Mick Ronsosn que muitas vezes acabavam numa simulação se sexo oral com david tocando a guitarra de Mick com os dentes.

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Tão forte foi a imersão do artista na personagem – a ponto de o público achar que eles eram um só – que Bowie resolveu aposentá-lo (junto com os Spiders of Mars) em 1973, após um show no Hammersmith Odeon, disponível em DVD. Não seria a primeira e nem a última metamorfose desse músico que, muito justamente, acabou ficando conhecido como “Camaleão do rock”.

Notas: Ziggy Stardust foi o primeiro disco de David Bowie a chegar às paradas inglesa e americana, abrindo o caminho para que ele se estabelecesse como artista de renome no rock. Logo em seguida, ele produziria os discos Transformer (do ex-Velvet Underground Lou Reed), Raw Power (dos Stooges, banda uma de suas grandes fixações, o cantor Iggy Pop) e All the Young Dudes (do Mott The Hoople, sendo autor também da faixa-título, um clássico do rock). O relançamento de Ziggy pela Ryko, em 1990, trouxe como faixas bônus versões alternativas de “Ziggy Stardust” e “Lady Stardust” e “John I’m Only Dancing”, a inédita “Sweet Head” e o lado B de compacto “Velvet Goldmine”, que batizaria filme do cineasta Todd Haynes (muito) livremente inspirado na biografia de Bowie.

Ziggy Stardust and The Spiders From Mars
David Bowie: (Vocais, Guitarra Base e Piano)
Mick Ronson: (Guitarra Solo)
Trevor Bolder: (Baixo)
Woody Woodmansy: (Bateria)

Track List
1.“Five Years”
2.“Soul Love”
3.“Moonage Daydream”
4.“Starman”
5.“It Ain´t Easy”
6.“Lady Stardust”
7.“Star”
8.“Hang Onto Yourself”
9.“Ziggy Stardust”
10.“Suffragette City”
11.“Rock´N`Roll Suicide”
12.”John, I’m Only Dancing”
13. “Velvet Goldmine”
14. “Sweet Head”
15. “Ziggy Stardust” (Original Demo)
16. “Lady Stardust” (Original Demo)