A FÁBULA DO CABRITO CLASSE MÉDIA

Escrito por Pablo Peixoto em 19.01.2014

Era uma vez um Cabrito.

Ele era um funcionário público concursado, carreira estável, que tinha o sonho de ser alpinista. Ele achava lindo a vida, a coragem e o glamour de uma vida de alpinista, se espelhava e admirava aquilo. Achava realmente lindo.

Como todo mundo sabe, não é fácil ser alpinista. Primeiramente, para ser um alpinista renomado, com status e prestígio, coisa que ele queria muito, precisava fazer parte do Clube dos Íbexes dos Alpes, instituição secular que reúnia os Íbexes das melhores e mais tradicionais famílias.

Mas nosso Cabritinho não era um Íbex, nem de uma tradicional família, não tinha honras nem louros, não tinha berço.Todavia, sabia trabalhar duro, ser educado, prestativo, dócil, puxar um bom saco e subir na vida comendo migalhas de quem estava (por ironia alpinística) acima dele.

O Cabrito então usou todos seus recursos para se equipar com os melhores equipamentos, fez cursos, se preparou, teve aulas de como agir como um Íbex dos Alpes e, no fim, estava vestido e ungido como um perfeito membro da elite, exceto pelo fato de que ele não o era.

Desta forma, nosso Cabrito ambicioso subiu a montanha. Ele tinha bons equipamentos, havia se preparado, tinha tudo planejado e logo chegou a um platô no meio da montanha. Feliz com sua pequena mas importante conquista, acendeu um cigarro.

O Cabrito estava orgulhoso. Era tão bom quanto um Íbex, embora não fosse sinceramente respeitado por nenhum Íbex, não tivesse o sobrenome de um Íbex, não comesse e não tivesse o salário de um Íbex, estava feliz de estar próximo ao estilo de vida de um Íbex.

Subito, surge um vento forte, um barulho ensurdecedor que levanta a neve nos olhos do Cabrito. A neve abre caminho para um grupo de bodes da caatinga, todos alucinados.

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Esses bodes não eram alpinistas comuns, pois estavam todos errados no julgamento do nosso herói. Apesar de terem marcas famosas de roupas e equipamentos, usavam todos de maneira equivocada, umas sobre as outras, com cores desarmoniosas e pouco práticas. Sem gosto, sem estilo, sem educação, sem respeitar as regras.

Além disso, esses Bodes não se portavam de acordo com os Ibexes. Vinham fazendo algazarra, cantando, jogando bolas de neve uns nos outros, rindo e debochando. Que suprema afronta para um Cabritinho adestrado e doutrinado pelas regras da etiqueta.

O Cabrito pensou que aqueles bodes agressivos e fora dos padrões ditados pelos Íbexes, não mereciam estar ali e os odiou.

Mas estavam todos juntos naquele platô.

E teriam que se aturar.

Moral da História: Vocês que são caprinos que se entendam.

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