O dilema da margem de erro.

Escrito por Pablo Peixoto em 24.08.2009
Ou o mundo do sapo é do tamanho da boca do poço.

Por que o Sarney, com tantos escândalos continua se reelegendo? Por que Dado Dolabella, com todos suas confusões foi premiado com 1 milhão? Por que aquela novela idiota dá tanto Ibope? Às vezes estas questões passam por nossas cabeças e é difícil imaginar que existam pessoas que pensam e agem diferentes da maneira que fazemos. Como reação, as pessoas tendem a acusar marmelada e que obviamente tem alguém manipulando os dados e os resultados. Infelizmente não. A verdade é que nos fechamos em nossas zonas de relacionamentos de classe-média e esquecemos que o Brasil é um país de idiotas. E são muitos os idiotas.

A culpa está no senso comum. Uma série de subjetividades e preconceitos inerentes ao pensamento racional, que nublam nossos resultados e nos fazem deduzir que todas as outras pessoas, de alguma maneira, pensam e reagem como nós. “Se ninguém que eu conheço vê este programa, logo não há motivos para ele fazer sucesso.” Não é bem assim que as coisas acontecem.

É uma tendência comum, pra quem passa bastante tempo em campos de relacionamento fechados como universidades ou até mesmo na internet deduzir que as pessoas são tão inteligentes quando elas. É um local onde você escolhe com quem vai conversar, escolhe seu conteúdo e convive com pessoas parecidas, de nível social e intelectual semelhante. Em outras palavras, você e cria seu próprio universo e se esquece que fora dele existem milhares de imbecis que você nem sequer sabe que existem.

Neste ambiente, é difícil imaginar que pessoas com algum discernimento, intelectual, político, ético e de valores sejam minorias. Faço uma pergunta a você, leitor: quantos dos seus amigos têm curso superior? 40%? 50%? Você reclama da inclusão digital, de analfabetos digitais, como se fosse praga, mas se esquece que no Brasil 10,9% da população brasileira é de analfabetos totais, que não conseguem nem digitar o login no Orkut. A escolaridade média do brasileiro é de 7 anos, não dá nem pra completar o segundo grau, mesmo sem reprovações. Ainda com todas as mamatas, pró-unis e faculdades de fundo de quintal, apenas 3,4% dos Brasileiros têm curso superior. Entre os eleitores brasileiros, 56% (72,3 milhões) não têm sequer o primeiro grau completo. São um mar de pessoas manipuláveis, crédulas e carentes, sucetíveis a qualquer forma de manipulação e persuasão. São estas pessoas que fazem a diferença nas votações, números de audiência e principalmente, eleições.

Essa semana me perguntaram:

Nós não somos o público real do Ibope. Nós não somos os eleitores que elegeram estes políticos. Nós não somos a opinião pública. Quem somos?

A resposta para a questão é: “somos a margem de erro”. Não fazemos Ibope, nem Presidente, nem diferença. No máximo podemos escolher os amigos nas redes sociais e liderar nossas revoluções de sofá.

Ps. Enquanto eu escrevia este artigo, o Rodrigo Scarpa, também conhecido como Repórter Vesgo criou uma enquete pra verificar a veracidade dos números do final d’A Fazenda entre seus seguidores no Twitter. O que só confirma o que eu escrevi. Por mais que seja impossível acreditar, o universo de seguidores do Scarpa não corresponde ao universo da audiência da Record.

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